
A novela do SBT, Amor e Revolução, escrita por Thiago Santiago, é uma coleção de erros grosseiros de fatos históricos que desqualificam seu conteúdo. Isto para não falar de diálogos tão primários que não estão à altura nem dos personagens e nem dos atores.
Cenas de tortura no hospital do exército do Rio nunca existiram na realidade. O comandante daquele hospital, médico e general Galeno, jamais permitiu que tais fatos ocorressem em seus domínios. Muitas foram as vezes em que o general Galeno enfrentou torturadores que queriam matar presos dentro do hospital. Existe até um caso histórico de um preso político, que foi torturado e morto nas salas de tortura, e que foi levado para o hospital do exército para que o general Galeno atestasse que o preso chegou vivo e morreu lá. E o general Galeno não apenas não permitiu isso, como fez uma autópsia primorosa, mostrando 53 marcas de tortura no corpo do preso. Isto tudo é atestado pela família do próprio preso e famílias de outros presos. O general Galeno foi um dos poucos e raros militares que enfrentou torturadores. Também nunca se usou o sódio pentatol nas dependências do hospital do Exército. O tal sódio era usado no sítio 31 de março, local de tortura em Parelheiros, em São Paulo, e também na Casa da Morte, que ficava lá no Rio, em Petrópolis.
Também existia uma clínica na avenida Santo Amaro, em São Paulo, comandada por um tal de dr.Abrão, que permitia abusos dos torturadores.
Outro erro grosseiro foi mostrar um oficial do Exército, no dia da revolução, como se fosse infiltrado no movimento estudantil. Isso não era o perfil do Exército. O que aconteceu logo depois da revolução foi que o Exército plantou uma mulher que era policial do DOPS, que tinha apelido de Maçã Dourada, para ser namorada de José Dirceu.
Também não existe na história do Brasil nenhum relato de que oficiais tenham determinado o sequestro de crianças filhos de presos, para entregá-los a outras famílias. Isso aconteceu na Argentina, e muito, e o caso lá mais conhecido foi dos filhos da dona do jornal El Clarin, que se recusa a fazer exame de DNA para provar que os filhos são seus de verdade.
Em outro momento, alguém fala do poder de Costa e Silva, mas o poder era de Castelo Branco, primeiro presidente do Brasil em 1964. Costa e Silva, naquele momento, nada mandava. Nem naquele momento e nem depois quando foi presidente, pois era apenas um boneco na mão de três generais que realmente mandavam no poder e que ocuparam seu lugar quando ele ficou impedido.
Outra falsidade da história é a criação imediata dos centros de tortura. Ora, os tais centros de tortura foram institucionalizados em 1969, com a criação da OBAN, Operação Bandeirante, financiada por grandes empresários de multinacionais e brasileiros, que davam muito dinheiro para os torturadores matarem presos políticos.
Depois da OBAN é que foi criado o DOI CODI, o mais terrível centro de torturas, que não existia apenas em São Paulo, mas em todas as regiões militares do Brasil. Em Brasília ele tinha o nome de PIC. Comandando esses centros de tortura estava o então famoso e temido general Canavarro.
Existiu até um fato histórico quando um general fardado foi impedido de entrar no DOI CODI do Paraná por um major, que sem farda, mas pertencente ao DOI CODI, mandava mais que um general.
Foi o começo da inversão de hierarquia e valores, que só foi corrigida com a postura do então general Geisel, que enfrentou e exonerou os torturadores, tanto os pequenos quanto os generais que os acobertavam. A atitude de Geisel aconteceu depois que um grupo do DOI CODI tentou invadir o Palácio dos Bandeirantes para sequestrar um arquiteto amigo do governador Paulo Egydio Martins, que estava lá escondido. Naquele momento, Geisel percebeu que tinha perdido o controle da tropa e decidiu limpar a tropa. Aquele foi o fato histórico da maior importância para a atual democracia.
O pior ainda dessa novela cara e com boa direção e excelentes atores, é que colocam no final de cada capítulo um relato de um antigo preso ou torturado político, como que atestando tudo que foi escrito na novela. Eu tinha escrito anteriormente que uma novela desse porte poderia ter erros técnicos ou de produção que deveriam ser relevados, diante de uma novela de peso histórico que seria esta. Aconteceu que a direção é muito boa, os atores são muito bons. Até a parte técnica, que foi mediana em outras novelas do SBT, desta vez se faz boa. E acabaram errando no mais fácil, que é levantar fatos históricos verdadeiros, para mostrar uma novela verdadeira, e não um arremedo da fantasia de um autor que se mostra sem condições de ser autor de tal monta, nem demonstra texto digno da história ou dos atores de tão grande excelência que estão interpretando a novela.
Tenho até certeza que Thiago Santiago não tem conhecimento real histórico para contar a trajetória verdadeira do delegado Sergio Paranhos Fleury, na novela citado como dr. Aranha. Fleury era o delegado da divisão de ordem política do DOPS. Num determinado dezembro, o delegado prendeu Shizuo Ozawa, lendário oposicionista armado. Foi Shizuo levado para o DOPS, para ser interrogado por Fleury. O DOI CODI então descobriu a prisão e requisitou que Fleury mandasse imediatamente Shizuo para o DOI CODI. Fleury se recusou a mandar Shizuo para o DOI CODI. Foi então que a tropa do DOI CODI invadiu o DOPS para sequestrar Shizuo. Ao ver tal situação, Fleury foi até onde estava Shizuo, fez com que o preso deitasse no chão e saltou sobre o peito do mesmo partindo-lhe as costelas. Os comandantes do DOI CODI, vendo seus desejos de ter posse de Shizuo frustrados, tinham tanto poder que fizeram com que o comando da polícia transferisse Fleury para uma delegacia nos arrabaldes e lhe tirasse o poder no DOPS. Fleury era ligado à Marinha e ao CENIMAR, Centro de Informações da Marinha. Então a Marinha conseguiu que Fleury voltasse ao DOPS. Desde então, passou a existir uma concorrência direta entre DOPS e DOI CODI.
James Akel
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